Flight to Paradise, de Ana Paganini


O projecto fotográfico Flight to Paradise de Ana Paganini (Lisboa, 1995) é o resultado da sua participação na 9ª edição do workshop “Narrativas Fotográficas do Intendente”, sob a orientação de Pauliana Valente Pimentel, exposto na Casa Independente, em Lisboa, entre 30 de Janeiro e 30 de Março de 2019.

Centrando-se no objectivo deste workshop, a criação de um arquivo fotográfico do Intendente que documente visualmente este bairro histórico de Lisboa nos seus diversos aspectos, Paganini opta por registar as agências de viagem existentes na Rua do Benformoso, fazendo uma interpretação dessa realidade através de um olhar único, fruto das vivências aí experimentadas. 

A abundância de diferentes culturas existentes nesta zona da cidade, pessoas originárias de outros países que aqui se estabelecem, em geral, de um modo temporário, contribuindo para um ambiente colorido e em constante movimento, conduzem a fotógrafa a uma interessante e sentida reflexão sobre o tema da emigração, centrado no universo particular e aparentemente contraditório destas agências de viagem.

Paganini destaca-nos, de forma delicada mas assertiva, o paradoxo que se prende com os trabalhadores dessas agências, evidenciando o facto de terem empreendido uma viagem que os afastou das suas origens, geográficas e culturais, encontrando-se agora em território estrangeiro a vender passagens para esses mesmos destinos dos quais são oriundos. Os clientes, na sua maioria conterrâneos destes trabalhadores e, tal como eles, afastados da sua terra natal por motivos económicos na generalidade, não perdem o seu forte carácter nacionalista contribuindo para fazer destas agências, espaços de convívio das suas comunidades. A ligação às raízes mantém-se viva, encontrando aqui um incentivo prático e bem adequado para a sua manutenção, realçado por Paganini.  

Tudo isto se sente nas imagens deste projecto. A melancolia e a saudade são sentimentos que se desprendem dos olhares dos retratados, em conjunto com aspectos de alguma precariedade ou de sonhos ainda por realizar que fazem parte das histórias destes locais e das pessoas que os animam. O movimento inerente a uma qualquer viagem, patente nos múltiplos cartazes captados pela fotógrafa associa-se ao cariz de permanente mobilidade que caracteriza o Intendente, remetendo-nos igualmente para uma ideia de distância que se estabelece ou de uma transitoriedade imposta ou consentida. A sensibilidade de Paganini encaminha-nos para pormenores que identificam outras culturas, clamando Pátrias longínquas ou para detalhes algo surpreendentes que caracterizam a familiaridade e a proximidade entre trabalhadores e clientes, vividas nas agências do Benformoso.

O espaço expositivo mostrou-se bem adaptado e livre de interferências, permitindo uma boa leitura, com uma folha de sala elucidativa e adequada. Paganini adoptou um ritmo cativante, com registos de diferentes dimensões agrupados numa eficaz instalação, recriando na Casa Independente a atmosfera das agências de viagem que documenta.

Flight to Paradise fala-nos de mudanças, de dificuldades que se ultrapassam, de laços afectivos que não se quebram, levando até o observador, quiçá, a ponderar sobre a essência da própria vida humana, numa busca constante por um Paraíso fruto da nossa imaginação, enquanto fazemos uma passagem efémera pela superfície da Terra.  

  Margarida Neves